sábado, 25 de junho de 2011

SAUDADE

A saudade nasce quando nós nascemos. Ela vem dentro de nós em estado de repouso, por isso é quase imperceptível. Ninguém provoca saudade em nós. As pessoas entram na nossa vida sem pedir licença, passam algum tempo transtornando nossa tranquilidade, intercalando bons e maus momentos, e vão embora sem nenhum prévio aviso. Porém não levam tudo com elas. Deixam algumas coisas que, na pressa, se esquecem de pegar, ficando a gen-te diante dessa bagunça, sem saber o que fazer, ou se o quer fazer, para co-meçar uma faxina que jamais seria completa. É essa movimentação que desperta a sonolenta saudade, que sempre vem em nosso socorro. Ela nos ajuda a colocar as peças espalhadas nos seus devidos lugares, sem precisar destruir nenhuma delas. Depois do serviço terminado, ela nos pede para cantar umas canções, escrever ou recitar uns versos ou mesmo derramar algumas lágrimas. Essas coisas fazem-na voltar a dormir até o transtorno de uma nova invasão.

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Para pensar um pouco mais:

“O bom é que quando um amor se vai, logo encosta outro, novinho em folha, e até lhe dá um empurrãozinho, quando não um pontapé.” Nabor Nunes

quinta-feira, 23 de junho de 2011

POBREZA

Tenho por perniciosa a ideia da pobreza como o preço a ser pago pela virtude: “Sou pobre, mas sou honesto!”.
A pobreza, em si mesma, já é uma indecência; conformar-se a ela é estupidez; argumentar ser ela necessária é cinismo; curvar-se ante os que a promovem é canalhice, e apregoar ser ela a vontade de Deus é a maior de todas as blasfêmias.

Nabor Nunes

sábado, 18 de junho de 2011

Para TOJÔ - in memoriam!

“Quando um amigo parte, parte da gente também parte com ele, e fica, desde então, esperando a outra parte, pra juntar-se a tantas outras, formando o todo universal.” Nabor Nunes

domingo, 12 de junho de 2011

DIAS DA NAMORADA


Nabor-12/06/2011



I

Imagine existir no calendário
um dia sem prestar explicações
nem cumprir as demais obrigações
de herdade para o seu proprietário!

Um dia pra seguir rumo contrário
ao que ordenam as imposições,
e de atender as próprias aptidões,
de seguir o seu próprio itinerário.

Imagine não ter que ouvir vantagens
de quem se besuntou de tatuagens
para a ausência de um cérebro suprir;

não ter que atender a tal chamada,
nervoso celular de hora marcada,
esse atento vigia a lhe seguir!



II


Um dia sem as frívolas promessas
daquele amor eterno e exclusivo,
que logo se transformam em motivo
das exigências mútuas mais diversas.

Dia de libertar-se das expressas
convocações do consumo imperativo
que faz do amor artigo produtivo
sob intenções malévolas submersas.

Não se impor dar presente obrigatório,
nem fingir que gostou, num gesto inglório
de quem menos ganhou que o esperado.

Dia sem ser exposta como enfeite
ou troféu, ao medíocre deleite
de quem pretende ser glorificado.






III


Um dia livre sem seu domador,
que atua através da vigilância,
exercida em silêncio e à distância,
e se antecipa a ser amo e senhor.

Esmerando-se em ser cultivador
da mais extravagante ignorância,
já habituou-se a ser, sem tolerância,
das mulheres pretenso possuidor.

É graças ao Poder e ao Mercado,
que inventaram o amor escravizado,
eficaz instrumento de domínio,

que evoca o mais estúpido direito,
causando à mulher o desrespeito
e da afetividade o extermínio.



IV



DIA DOS NAMORADOS? Pois que seja!
Mas por que não pra namorada um dia,
no qual, em liberdade, viveria,
de acordo com o que a vida lhe bafeja?

Seguindo só ao que seu ser almeja,
de tão prazer jamais se privaria,
todo o seu corpo em brasa se abriria
a outros tantos corpos que deseja.

Nada custa, porém, ser transigente!
Preserve-se essa vez do prepotente,
por ser vítima ingênua de um engano!

Mas, imagine, enfim, seu dia sendo,
não só o que você está vivendo,
porém todos demais dias do ano!

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Para pensar hoje:
Os namorados têm seu dia. E as namoradas o que têm?