Nabor Nunes -1992
Doravante quero viver esse meu outro,
tão fascinado pelo que mais teme,
amedrontado pelo que mais quer
e sufocado pelo que lhe escapa.
É ele a verdade que só quer mentir:
a prazerosidade descontente;
o ponto de desencontro
das incertezas mutáveis.
Ele me faz
querer ser o que é,
e o que não é, ser mais ainda.
Instiga-me a fazer que minha solidão me baste
e que meu vazio me preencha por inteiro;
que as noites dos meus sonhos sejam longas,
mais longas ainda minhas horas de ausência.
Quero por ele
merecer toda ternura
desta brisa fria que me aquece a alma
e me embriaga de mais vida.
Escolher ter a paz de não ter nada,
porque nada ter é ser um todo.
Despir-me do alheio corpo
que uma vez foi meu
e assumir inteiramente
minha própria epiderme sequiosa.
Trocar a momentaneidade do prazer
pela grandiosidade eterna do desejo.
Doravante preciso assumir esse meu outro.
Meu outro absurdo.
Meu outro verdade.
Meu outro carência.
Meu outro incoerência.
Liberdade.
Tão diferente
e tão semelhante a outros!
Esse outro que é tão outro
que chega até a ser eu mesmo.
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Do livro VERSOS DO AMOR DIVERSO
www.clubedeautores.com.br
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Pensamento da semana: "Pensando bem, sou louco mesmo! Graças a Deus!" Nabor Nunes
Eroticamente Humano
domingo, 31 de julho de 2011
terça-feira, 26 de julho de 2011
ETERNIDADE
Nós nos tornamos eternos nas lembranças de outras pessoas, não sabemos quantas. De alguma forma, essas lembranças nossas em outros, provocam e até modificam outras lembranças de mais outros, e assim viajamos de lembrança em lembrança, estas expressas por linguagens variadas, através dos infinitos universos existentes, sendo que cada lembrança nasce e se desenvolve nos múltiplos universos de cada um.
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Do livro CLÁUDIA E ANELISE: PAIXÕES DE OUTONO
www.clubedeautores.com.br
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Do livro CLÁUDIA E ANELISE: PAIXÕES DE OUTONO
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domingo, 17 de julho de 2011
CARINHO
O carinho feito a uma pessoa não fere necessariamente uma terceira. O que fere é o falso carinho, o exclusivista, aquele mercantilizado, usado como instrumento de chantagem, geralmente motivado pela intenção da posse. Aí, a suposta ternura se torna uma espécie de moeda com que se compra a submissão e até as mecânicas carícias de outro. Quando esse outro esboça algum sinal de expandir seu universo afetivo, o chantagista se sente magoado. Essa espécie de carinho, exigido e privativo, facilmente se esgota. Entretanto, o verdadeiro carinho é um dom que não se desgasta, vez que é uma dádiva do ser a outros seres e, quanto mais se expande até outros alcançar, mais se intensifica em cada um.
ÁLVARO LAREDO
(Personagem do romance Cláudia e Anelise-paixões de outono, disponível pelo site www.clubedeautores.com.br.
ÁLVARO LAREDO
(Personagem do romance Cláudia e Anelise-paixões de outono, disponível pelo site www.clubedeautores.com.br.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO SER HUMANO
Nabor Nunes Filho
Amo o ser humano!
Amo-o porque, sem dúvida, é a criatura mais singular dentre todos os seres conhecidos no universo. Sua peculiaridade, que não o torna necessariamente superior aos demais, se faz sentir no seu modo de interferir na realidade concreta, quebrando o ritmo do curso normal das coisas, estabelecendo esse desequilíbrio, esse transtorno que é o princípio de sua auto-realização. Essa é a marca preponderante da peculiaridade humana: a sua infiltração no andamento rotineiro, instaurando a cisão, a fragmentação do mundo. O ambiente espaço-temporal onde acontece essa fragmentação é o que chamamos de HISTÓRIA. A História, portanto, é o resultado da ação do homem quando este intervém, alterando significativamente a previsibilidade das leis naturais.
Consciente de si mesmo e das condições sob as quais sua vida se processa, o ser humano se recusa a ser o que é, segundo palavras de Albert Camus, ou seja, não aceita tais condições e parte para recriar, transformar o mundo. Isso é feito, primeiramente, por meio do trabalho. O trabalho é, ao menos nesse sentido, uma atividade exclusivamente humana. Embora o senso comum tenha nos ensinado que os animais também trabalham, a sua atividade se processa mais no sentido de se adaptarem ao meio já existente, enquanto que, o trabalho humano tem como objetivo a transformação do meio natural e a criação de um meio alternativo. Além do mais, ao trabalho do homem se agregam elementos estruturais que estão ausentes nos demais seres ativos, quais sejam, o pensamento, o conhecimento, o planejamento etc.
O segundo instrumento de interferência humana no mundo natural é a linguagem, ou seja, a Palavra. Sem ela a nossa relação com a natureza seria não dinâmico-transformadora, mas reativo-adaptativa. O mundo não existiria sem a palavra. Sem a palavra "mundo" o que conhecemos hoje por mundo seria um grande aglomerado de coisas disformes, sem nenhum sentido; ou seja, o vazio. É impossível para a mente humana conceber qualquer coisa, por simples que seja, sem que haja uma palavra que a corresponda. É a palavra que empresta ao trabalho o elemento conceptivo. É também a palavra que transfere para a realidade objetiva as contradições próprias do ser humano e vice-versa. É pela palavra que o homem e o mundo intercambiam suas profundas dissonâncias, seus distanciamentos. A palavra, embora fator pelo qual a existência concreta é detectada, é o ponto de desencontro entre o homem e o mundo, e entre o homem e seu semelhante. Daí essa fantástica rede de complexas relações que caracterizam a história da qual o homem é causa e efeito.
O ser humano, esse ser criador das grandes obras de arte e das extremas contradições, capaz de atos heróicos e atitudes covardes, da seriedade e do ridículo, do beijo e do escárnio; esse ser humano, fascinado pelo que mais teme e amedrontado pelo que mais deseja, convicto das grandes mentiras e questionador das maiores certezas, é esse ser que mais amo. Amo suas angústias e prazeres. Amo seus folguedos e desesperos. Amo suas imperfeições e seus desejos. Amo-o, enfim, com o incontido orgulho de ser eu mesmo um exemplar, ainda que anônimo e inexpressivo, dessa pequena obra prima do universo.
Claro que aqui estou falando de ser humano, não dessas aberrações que andam por aí, a maioria delas ocupando privilegiado espaço na mídia e até nos conceitos de moral e de virtude. Falo de ser humano, não daqueles que já deixaram de sê-lo, e, insuflados pela ânsia insaciável de poder, têm tentado destruir o que de humano ainda nos resta. Refiro-me ao verdadeiro ser humano que ainda não morreu.
Amo o ser humano porque sou humano, um ser humano só humano; gostosa, e eroticamente humano!
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Pensamento da semana: "A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano." Clarice Lispector
Amo o ser humano!
Amo-o porque, sem dúvida, é a criatura mais singular dentre todos os seres conhecidos no universo. Sua peculiaridade, que não o torna necessariamente superior aos demais, se faz sentir no seu modo de interferir na realidade concreta, quebrando o ritmo do curso normal das coisas, estabelecendo esse desequilíbrio, esse transtorno que é o princípio de sua auto-realização. Essa é a marca preponderante da peculiaridade humana: a sua infiltração no andamento rotineiro, instaurando a cisão, a fragmentação do mundo. O ambiente espaço-temporal onde acontece essa fragmentação é o que chamamos de HISTÓRIA. A História, portanto, é o resultado da ação do homem quando este intervém, alterando significativamente a previsibilidade das leis naturais.
Consciente de si mesmo e das condições sob as quais sua vida se processa, o ser humano se recusa a ser o que é, segundo palavras de Albert Camus, ou seja, não aceita tais condições e parte para recriar, transformar o mundo. Isso é feito, primeiramente, por meio do trabalho. O trabalho é, ao menos nesse sentido, uma atividade exclusivamente humana. Embora o senso comum tenha nos ensinado que os animais também trabalham, a sua atividade se processa mais no sentido de se adaptarem ao meio já existente, enquanto que, o trabalho humano tem como objetivo a transformação do meio natural e a criação de um meio alternativo. Além do mais, ao trabalho do homem se agregam elementos estruturais que estão ausentes nos demais seres ativos, quais sejam, o pensamento, o conhecimento, o planejamento etc.
O segundo instrumento de interferência humana no mundo natural é a linguagem, ou seja, a Palavra. Sem ela a nossa relação com a natureza seria não dinâmico-transformadora, mas reativo-adaptativa. O mundo não existiria sem a palavra. Sem a palavra "mundo" o que conhecemos hoje por mundo seria um grande aglomerado de coisas disformes, sem nenhum sentido; ou seja, o vazio. É impossível para a mente humana conceber qualquer coisa, por simples que seja, sem que haja uma palavra que a corresponda. É a palavra que empresta ao trabalho o elemento conceptivo. É também a palavra que transfere para a realidade objetiva as contradições próprias do ser humano e vice-versa. É pela palavra que o homem e o mundo intercambiam suas profundas dissonâncias, seus distanciamentos. A palavra, embora fator pelo qual a existência concreta é detectada, é o ponto de desencontro entre o homem e o mundo, e entre o homem e seu semelhante. Daí essa fantástica rede de complexas relações que caracterizam a história da qual o homem é causa e efeito.
O ser humano, esse ser criador das grandes obras de arte e das extremas contradições, capaz de atos heróicos e atitudes covardes, da seriedade e do ridículo, do beijo e do escárnio; esse ser humano, fascinado pelo que mais teme e amedrontado pelo que mais deseja, convicto das grandes mentiras e questionador das maiores certezas, é esse ser que mais amo. Amo suas angústias e prazeres. Amo seus folguedos e desesperos. Amo suas imperfeições e seus desejos. Amo-o, enfim, com o incontido orgulho de ser eu mesmo um exemplar, ainda que anônimo e inexpressivo, dessa pequena obra prima do universo.
Claro que aqui estou falando de ser humano, não dessas aberrações que andam por aí, a maioria delas ocupando privilegiado espaço na mídia e até nos conceitos de moral e de virtude. Falo de ser humano, não daqueles que já deixaram de sê-lo, e, insuflados pela ânsia insaciável de poder, têm tentado destruir o que de humano ainda nos resta. Refiro-me ao verdadeiro ser humano que ainda não morreu.
Amo o ser humano porque sou humano, um ser humano só humano; gostosa, e eroticamente humano!
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Pensamento da semana: "A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano." Clarice Lispector
sábado, 25 de junho de 2011
SAUDADE
A saudade nasce quando nós nascemos. Ela vem dentro de nós em estado de repouso, por isso é quase imperceptível. Ninguém provoca saudade em nós. As pessoas entram na nossa vida sem pedir licença, passam algum tempo transtornando nossa tranquilidade, intercalando bons e maus momentos, e vão embora sem nenhum prévio aviso. Porém não levam tudo com elas. Deixam algumas coisas que, na pressa, se esquecem de pegar, ficando a gen-te diante dessa bagunça, sem saber o que fazer, ou se o quer fazer, para co-meçar uma faxina que jamais seria completa. É essa movimentação que desperta a sonolenta saudade, que sempre vem em nosso socorro. Ela nos ajuda a colocar as peças espalhadas nos seus devidos lugares, sem precisar destruir nenhuma delas. Depois do serviço terminado, ela nos pede para cantar umas canções, escrever ou recitar uns versos ou mesmo derramar algumas lágrimas. Essas coisas fazem-na voltar a dormir até o transtorno de uma nova invasão.
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Para pensar um pouco mais:
“O bom é que quando um amor se vai, logo encosta outro, novinho em folha, e até lhe dá um empurrãozinho, quando não um pontapé.” Nabor Nunes
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Para pensar um pouco mais:
“O bom é que quando um amor se vai, logo encosta outro, novinho em folha, e até lhe dá um empurrãozinho, quando não um pontapé.” Nabor Nunes
quinta-feira, 23 de junho de 2011
POBREZA
Tenho por perniciosa a ideia da pobreza como o preço a ser pago pela virtude: “Sou pobre, mas sou honesto!”.
A pobreza, em si mesma, já é uma indecência; conformar-se a ela é estupidez; argumentar ser ela necessária é cinismo; curvar-se ante os que a promovem é canalhice, e apregoar ser ela a vontade de Deus é a maior de todas as blasfêmias.
Nabor Nunes
A pobreza, em si mesma, já é uma indecência; conformar-se a ela é estupidez; argumentar ser ela necessária é cinismo; curvar-se ante os que a promovem é canalhice, e apregoar ser ela a vontade de Deus é a maior de todas as blasfêmias.
Nabor Nunes
sábado, 18 de junho de 2011
Para TOJÔ - in memoriam!
“Quando um amigo parte, parte da gente também parte com ele, e fica, desde então, esperando a outra parte, pra juntar-se a tantas outras, formando o todo universal.” Nabor Nunes
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