Nabor Nunes Filho
Amo o ser humano!
Amo-o porque, sem dúvida, é a criatura mais singular dentre todos os seres conhecidos no universo. Sua peculiaridade, que não o torna necessariamente superior aos demais, se faz sentir no seu modo de interferir na realidade concreta, quebrando o ritmo do curso normal das coisas, estabelecendo esse desequilíbrio, esse transtorno que é o princípio de sua auto-realização. Essa é a marca preponderante da peculiaridade humana: a sua infiltração no andamento rotineiro, instaurando a cisão, a fragmentação do mundo. O ambiente espaço-temporal onde acontece essa fragmentação é o que chamamos de HISTÓRIA. A História, portanto, é o resultado da ação do homem quando este intervém, alterando significativamente a previsibilidade das leis naturais.
Consciente de si mesmo e das condições sob as quais sua vida se processa, o ser humano se recusa a ser o que é, segundo palavras de Albert Camus, ou seja, não aceita tais condições e parte para recriar, transformar o mundo. Isso é feito, primeiramente, por meio do trabalho. O trabalho é, ao menos nesse sentido, uma atividade exclusivamente humana. Embora o senso comum tenha nos ensinado que os animais também trabalham, a sua atividade se processa mais no sentido de se adaptarem ao meio já existente, enquanto que, o trabalho humano tem como objetivo a transformação do meio natural e a criação de um meio alternativo. Além do mais, ao trabalho do homem se agregam elementos estruturais que estão ausentes nos demais seres ativos, quais sejam, o pensamento, o conhecimento, o planejamento etc.
O segundo instrumento de interferência humana no mundo natural é a linguagem, ou seja, a Palavra. Sem ela a nossa relação com a natureza seria não dinâmico-transformadora, mas reativo-adaptativa. O mundo não existiria sem a palavra. Sem a palavra "mundo" o que conhecemos hoje por mundo seria um grande aglomerado de coisas disformes, sem nenhum sentido; ou seja, o vazio. É impossível para a mente humana conceber qualquer coisa, por simples que seja, sem que haja uma palavra que a corresponda. É a palavra que empresta ao trabalho o elemento conceptivo. É também a palavra que transfere para a realidade objetiva as contradições próprias do ser humano e vice-versa. É pela palavra que o homem e o mundo intercambiam suas profundas dissonâncias, seus distanciamentos. A palavra, embora fator pelo qual a existência concreta é detectada, é o ponto de desencontro entre o homem e o mundo, e entre o homem e seu semelhante. Daí essa fantástica rede de complexas relações que caracterizam a história da qual o homem é causa e efeito.
O ser humano, esse ser criador das grandes obras de arte e das extremas contradições, capaz de atos heróicos e atitudes covardes, da seriedade e do ridículo, do beijo e do escárnio; esse ser humano, fascinado pelo que mais teme e amedrontado pelo que mais deseja, convicto das grandes mentiras e questionador das maiores certezas, é esse ser que mais amo. Amo suas angústias e prazeres. Amo seus folguedos e desesperos. Amo suas imperfeições e seus desejos. Amo-o, enfim, com o incontido orgulho de ser eu mesmo um exemplar, ainda que anônimo e inexpressivo, dessa pequena obra prima do universo.
Claro que aqui estou falando de ser humano, não dessas aberrações que andam por aí, a maioria delas ocupando privilegiado espaço na mídia e até nos conceitos de moral e de virtude. Falo de ser humano, não daqueles que já deixaram de sê-lo, e, insuflados pela ânsia insaciável de poder, têm tentado destruir o que de humano ainda nos resta. Refiro-me ao verdadeiro ser humano que ainda não morreu.
Amo o ser humano porque sou humano, um ser humano só humano; gostosa, e eroticamente humano!
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Pensamento da semana: "A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano." Clarice Lispector
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